Arquivo de April, 2008

Jeff Buckley

Saturday, April 26th, 2008

Apague a luz, a fim de apreciar uma boa música da maneira mais apropriada: de olhos fechados, para que a mente possa viajar longe. Depois, ouça Grace ou Last Goodbye usando seu melhor par de fones de ouvido. Se você completar a audição de uma destas músicas sem sentir um nó na garganta, sinto muito: você deve ter alguma falha grave de caráter.

“My fading voice sings of love, but she cries to the clicking of time”

Descobri Jeff Buckley há relativamente pouco tempo, graças ao saudoso Napster. Estava eu procurando por uma versão decente de Calling You, quando me deparei com a cover de um certo Buckley. Downloadeei o arquivo mp3 simplesmente por puxar, e fiquei embasbacado: quem era o dono daquela voz extraordinária, que deixara meus ouvidos boquiabertos? Imediatamente passei a procurar na Web por todas as suas canções. Consolidei, enfim, minha primeira impressão: a obra de Jeff Buckley é um amálgama de folk, blues, jazz e rock da mais alta qualidade artística, com canções que falam sobre espiritualidade, dor e redenção.

“A desert road from Vegas to nowhere, some place better than where you’ve been”

Após descobrir a obra, vim a conhecer sua biografia. Jeffrey Scott Buckley foi o fruto indesejado de um casamento fracassado entre Mary Guibert e Tim Buckley. Tim, que foi outro brilhante cantor e compositor, separou-se de sua esposa quando ela ainda estava grávida, afastando-se do filho a fim de prosseguir com sua carreira musical. Só veio a encontrá-lo uma única vez, em 1975, quando Jeff já tinha oito anos. Poucas semanas depois, Tim morreu devido a uma superdose de heroína, aos 28 anos de idade.

“I love you, but I’m afraid to love you”

Jeff viria a lapidar seus dons musicais no circuito de bares e clubes underground de Nova York. Logo surgiram as inevitáveis comparações com Tim, uma legenda musical devido ao seu talento e, claro, à sua morte precoce. Jeff nunca superou totalmente a ausência do pai durante sua infância. Em uma entrevista, declarou: “Quando nasci, meu avô me olhou e disse, ‘yeah, ele se parece exatamente com um filho da puta’”. Mas Jeff logo provaria ter talento suficiente para ofuscar comparações. Contratado pela Columbia, gravou seu primeiro álbum, Grace, em 1994, imediatamente reconhecido pela crítica como um dos melhores lançamentos daquele ano. Um disco precisamente definido pelo jornalista Bill Flanagan como pertencente à rara estirpe das obras que, mais do que meramente inspirar, fomentam maiores aspirações artísticas, por instigar músicos a partirem em busca da superação de seus limites criativos.

“Kiss me, please kiss me, but kiss me out of desire, babe, and not consolation”

Jeff sempre foi avesso a badalações midiáticas. Quando recebeu uma cópia da revista People, que incluíra seu nome na lista das 50 pessoas mais bonitas do ano de 1995, ele jogou longe o exemplar, dizendo: “isso não significa porra nenhuma”. Em busca da paz necessária, pôs o pé na estrada, viajando com sua banda pela América e pela Europa. Seu novo álbum só começaria a ser gravado três anos após Grace. No dia 29 de maio de 1997, feliz com os resultados das primeiras gravações, Jeff resolveu se dar uma folga. Viajou até a marina de Mud Island Harbor, às margens do mítico rio Mississipi. Mergulhou para nunca mais voltar: seu corpo foi encontrado quatro dias depois. Aos 29 anos de idade, Jeff Buckley repetiu o prematuro final de seu pai, deixando em vida apenas um álbum e alguns singles gravados: seu breve, mas precioso legado.

Sobre o dia de Tiradentes

Monday, April 21st, 2008

O feriado do dia 21 de abril resgata o dia em que o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (apelido que ganhou por causa de suas atividades como dentista), morreu enforcado em praça pública, na cidade de Vila Rica, Minas Gerais, no ano de 1792. Caso você tenha cabulado as aulas de História, vale a pena recordar que Tiradentes foi condenado à morte pela acusação de conspiração contra a Coroa Portuguesa. Após sua morte seu corpo foi esquartejado, e partes do seu corpo foram expostas em público em diversos lugares entre Vila Rica e Rio de Janeiro, a fim de servirem como exemplos do que poderia acontecer a qualquer brasileiro que ousasse se insurgir contra Portugal. A casa de Tiradentes foi demolida e o terreno onde ficava foi salgado, para que nada pudesse brotar daquele solo.

Outros líderes da Inconfidência Mineira não tiveram sortes mais edificantes. O poeta Cláudio Manoel da Costa suicidou-se dois dias após sua prisão, em uma cela que tornou-se ponto turístico em Ouro Preto, atual nome da cidade de Vila Rica. Inácio de Alvarenga Peixoto para um degredo perpétuo em Angola, país no qual morreu um ano depois de sua viagem sem volta. Tomás Antônio Gonzaga, que estava prestes a se casar com a jovem Maria Dorotéia, foi separado de sua amada e obrigado a partir para Moçambique, onde viveu até sua morte, em 1812.

Joaquim Silvério dos Reis, que entrou para os livros de História como sinônimo de traíra e dedo-duro, delatou seus colegas de insurreição em troca do perdão de suas dívidas com o Tesouro Real. Jerônimo Capitânia, o carrasco de Tiradentes responsável pelo seu enforcamento, foi um escravo que havia tido sua pena comutada de condenação a morte por prisão perpétua, e que até o fim de sua vida cuidou das execuções ordenadas pela Justiça da época. E Tiradentes acabou por se tornar o único cidadão brasileiro a ter a data de sua morte transformada em feriado nacional.

Muitos anos depois, em 1953, Cecília Meireles escreveu um poema épico inspirada nesses fatos históricos, intitulado Romanceiro da Inconfidência. Pertence ao Romanceiro a famosa estrofe “Liberdade - essa palavra,/ que o sonho humano alimenta:/ que não há ninguém que explique,/ e ninguém que não entenda!”. Tais versos são citados ao final do premiadíssimo curta-metragem Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado em 1989, considerado um dos 100 curtas mais importantes da história do cinema mundial segundo os organizadores do festival de Clermont-Ferrand, na França. Se você inacreditavelmente ainda não assistiu a Ilha das Flores, confira o vídeo abaixo. Garanto que seu feriado não será de todo desperdiçado.

Cinco momentos edificantes da televisão brasileira. Ou não.

Sunday, April 13th, 2008

1. O vídeo a seguir exibe dois momentos antológicos do Show do Milhão. O primeiro mostra um participante pulando uma pergunta tão complexa quanto saber a cor do cavalo branco de Napoleão. E o segundo é a prova inconteste de que o grande momento de sapiência de Luciana Gimenez foi o momento em que conseguiu engravidar de Mick Jagger.

2. Olhem, se todo repórter policial fosse sacaneado pelos entrevistados do mesmo modo que a arrombadora de apartamentos da matéria abaixo, eu até teria prazer em assistir a esse tipo de programa. Confiram, pois, as sutilíssimas cantadas que o “menininho de papai” recebe da detida que promete fazer tudo “bem direitinho e gostosinho”…

3. Maria Beltrão, para mim a mais simpática e autêntica apresentadora de telejornais, comenta algumas das gafes que cometeu na Globo News em uma entrevista no Programa do Jô. Não à toa, alguns de seus fãs criaram um blog dedicado à sua carreira.

4. Emílio Surita, antes de apresentar o Pânico na TV, trabalhou em 1988 como repórter da Band, fazendo a cobertura dos bailes carnavalescos. Confiram a desenvoltura do rapaz fazendo aquelas clássicas perguntas maliciosas a uma radialista que, subentende-se, já conhecia Surita de outros carnavais. Atentem para os cortes de câmera que ressaltam closes sutilíssimos de outras foliãs.

5. Um crássico instantâneo das gafes ao vivo: William Waack, âncora do Jornal da Globo (considerado um “vampiro” pela Gabi), trocando o sobrenome da repórter Zelda Melo por um tratamento mais escatológico. Vergonha alheia na veia!

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Orações para blogueiros e participantes do Big Brother

Wednesday, April 2nd, 2008

O devotado irmão Samael Cardoso, em seu blog Orações.Net, criou duas belas orações para categorias que, até então, não haviam sido contempladas com nenhuma sagrada prece. A primeira delas é a edificante Oração do Big Brother, dedicada aos irmãos que são afligidos com dúvidas angustiantes. Por exemplo: como criar uma justificativa convincente para indicar aquela biscate fingida no paredão e tapear os espectadores com uma fala menos clichezenta do que “somos todos amigos aqui, Bial, é só uma questão de afinidade”?

Os heróis do Bial no Sofá do Big Brother Brasil.

Senhor;

Que Sua luz nos ilumine durante as provas,
Que tratemos nossos companheiros e competidores segundo Sua vontade,
Que não nos entreguemos à cobiça, à fornicação, à intriga e à maldade,

Que nossa ida ao Paredão seja um momento de celebrar Sua Glória,
que ele caia como as Muralhas de Jericó, diante de Sua Palavra.

Senhor;
Dai-nos sabedoria para os momentos difíceis, alegria e serenidade nos momentos tristes.
Cuida de nossa família e nossos entes queridos, e daqueles próximos a nossos companheiros.
Dai-nos a paz para aceitar a derrota, e se for Sua vontade, dai-nos a Vitória, para que com ela espalhemos ainda mais Sua Verdade.

Amém

Irmão Samael também não se esqueceu de uma classe emergente que gosta de criar polêmicas sobre monetização e velha mídia em discussões amarfanhadamente repetitivas: os blogueiros. Confiram a seguir sua bela Prece do Blogueiro:

Senhor; eu vos peço nesta hora de aflição que me Ilumine com idéias. Que me encha de Sua paz e sabedoria. Que meu post acerte em cheio, trazendo júbilo ao meu leitor.

Senhor; que meu anúncio seja mais que o vil metal, que Vossa mão guie meu leitor para um clique útil, que aquela página abra seus caminhos assim como vós tendes aberto os meus.

Senhor; dai-me a serenidade para responder a meus comentaristas, mesmo aqueles mais afastados de Tuas Sendas.

Senhor; mantenha-me afastado do plágio, que minhas idéias sejam retas e originais, e que o olho dos plagiadores seja cegado por Sua Glória, que eles não roubem meu trabalho inspirado em Tua obra.

Senhor; que com Tua Sabedoria ao meu lado eu alce humildemente os maiores píncaros dos rankings, mas que nunca me escape a certeza de que o Maior de Todos, o número 1 sois vós.

Amém.

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