Arquivo de January, 2008

Prediletos da casa: Dorothy Parker

Wednesday, January 16th, 2008

Dorothy Rotschild Parker (1893-1967) escreveu contos, poemas e críticas que foram publicados em algumas das melhores publicações americanas de todos os tempos em seu auge de qualidade: The New Yorker, Esquire, Vanity Fair. Sua produção literária, porém, foi por muito tempo ofuscada pela ferocidade de suas tiradas verbais. Alguns exemplos:

- Um de seus desafetos foi Clare Booth Luce, mulher do editor da revista Time. Pois reza a lenda que ambas se cruzaram em uma porta giratória. Clare, mais jovem, deixou que Dorothy passasse primeiro pela porta, sem antes cutucá-la: “As velhas, antes das belas”. Parker retrucou imediatamente: “As pérolas, antes das porcas”. Não é preciso dizer que Dorothy por muito tempo foi boicotada das páginas da Time.

- Ainda sobre Booth Luce, quando lhe disseram que sua rival era gentil com seus inferiores, Mrs. Parker perguntou: “Mas onde ela os encontra?”.

- Ao escrever sobre certa madame da socidade novaiorquina, Dorothy desferiu a seguinte observação: “Aquela mulher domina dezoito idiomas, e não consegue dizer ‘não’ em nenhuma delas”. Nunca mais foi convidada para as festas da poliglota socialite.

- Ao resenhar um livro para a Esquire, resumiu sua opinião em apenas duas frases: “Este não é um livro para ser deixado casualmente de lado. É para ser atirado longe com toda a força”.

Contudo, repito o erro que muitos cometem ao reproduzir suas deliciosas tiradas, deixando em segundo plano sua verve literária. Mrs. Parker é a mestre do humor amargo. Seus contos e poesias são impregnadas de reflexões sobre amor, tristeza e solidão. Dorothy, contudo, desfaz qualquer resquício de sentimentalismo cunhando tiradas humorísticas que fazem seus leitores gargalharem enquanto acalentam suas próprias melancolias. Imperdíveis, por exemplo, são os seus versos curtos, publicados em três livros: “Enough Rope”, “Sunset Gun” e “Death and Taxes”. Alguns exemplos:

dorothy-parker.jpgResumo

Giletes machucam; Rios são úmidos;
Ácidos mancham; Drogas dão cãimbras;
Armas são ilegais; Nós escorregam;
Gases fedem; Acho melhor você viver.

Infeliz Coincidência

Enquanto você jura que é dele,
E treme, e suspira leniente,
E ele declara que infinita e imortal
É a paixão que sente
- Lady, faça uma nota disto:
- Um de vocês mente.

Entrelinhada em seus versos e prosas (leitoras, não deixem de conferir “Um Telefonema”, dociamarga descrição da espera pela ligação de “alguém”) está a vida de uma mulher que, após ter convivido com nomes como Noël Coward, os irmãos Marx, George Kaufman e Nathanael West, e tomado atitudes como viajar para a Espanha durante a Guerra Civil apenas para apoiar os republicanos, morreu pobre e esquecida, de ataque cardíaco, aos 74 anos.

Irônico: no auge do sucesso, durante a Era do Jazz nos anos 20 e 30, Mrs. Parker tentou o suicídio três vezes. Seu melhor amigo, o crítico e humorista Robert Benchley, proferiu-lhe um conselho: “Dorothy, pare com isso. Suicídios fazem mal à saúde”. Pois Dorothy sobreviveu a quase todos da sua geração, inclusive a Benchley, que, morto de cirrose hepática em 1945, suscitou o seguinte comentário de Parker: “Coitado do filho da puta!”.

Um crássico das dublagens toscas

Tuesday, January 15th, 2008

Até pouco tempo atrás, achava que nenhum trabalho de dublagem poderia superar o que havia sido feito com Stallone Cobra. Ledo engano. Fui obrigado a rever minhas opiniões após encontrar no blog do Rodrigo James este crássico, extraído de uma cena de Warriors - Selvagens da Noite, de Walter Hill. Como diria Sílvio Luiz: confiram comigo no replay!

Em tempo: você ainda não viu Sylvester Stallone falando “você é um cocô”? Ah, não seja por isso.

Piores títulos de todos os tempos - III

Thursday, January 10th, 2008

cinderelabaiana.jpg

Cinderela, o conto de fadas escrito originalmente pelo francês Charles Perrault em 1697, livremente inspirado em uma lenda italiana sobre uma gata borralheira, nunca recebeu uma versão tão esdrúxula quanto a cunhada pelo cineasta brasileiro Conrado Sanchez, cujo currículo no IMDB apresenta obras do quilate de Como Afogar o Ganso, Prisioneiras da Selva Amazônica, Viúvas Eróticas e um título que um dia eu haverei de assistir: Amado Batista em Sol Vermelho.

Cinderela Baiana é a obra que imortalizou o nome de Carla Perez na história do cinema tupiniquim. Veja a cena abaixo, uma pequena obra-prima de denúncia social ao som de um antológico sucesso do grupo É o Tchan, e você haverá de concordar comigo. Ou não.

P.S.: Confira os outros posts desta série: “Pum! Emissão Impossível” e “Nut - Nasceu Burro, Não Aprendeu Nada, Esqueceu a Metade”.

Por que o Buffalo Tom é tão pouco conhecido?

Tuesday, January 8th, 2008

Em um mundo ideal, bastaria você compor as músicas mais cativantes, gravá-las em arranjos matadores e pronto: seu grupo seria o número 1 nos hit parades, ocupando o lugar de loiras neuróticas que gostam de sair sem calcinha ou bandas emo de letras pueris simplesmente incapazes de achar rimas mais mirabolantes do que “razões” com “emoções”. Lamentavelmente, este mundo está na versão beta, e as devidas correções e eliminações de bugs só surgirão depois do Armageddon, quando eu e 97,42% dos meus amigos estivermos servindo como recheio dos caldeirões borbulhantes de Louis Cypher lá nas profundezas dos nove círculos de Dante.

Uma coisa que jamais aceitarei é saber que uma banda como o Buffalo Tom, responsável por algumas das mais belas canções que um grupo de rock já gravou, nunca emplacou um Top 10 na Billboard, permanece desconhecida das grandes massas e é ignorada até pela crítica em geral. Ouço, com renovado prazer no repeat do meu Winamp, músicas como “Late at Night”, “Wiser”, “Summer” ou “Taillights Fade”, porque são canções que me fazem imergir em toda uma série de reminiscências e pensamentos ligados a caminhadas com brisa no rosto, sorrisos de mulher, a incidência de um raio de sol em determinado ângulo no meu quarto, lembranças da criança besta e feliz que fui, e toda uma série de imagens mentais e vagamente oníricas que só grandes obras (em estado sóbrio, ressalte-se) são capazes de inspirar dentro da gente.

Mas o caso é que tudo na vida é uma questão de timing. Tenho a impressão de que o Buffalo Tom, que em meados dos anos 90 tinha o respaldo da crítica, no auge do movimento de rock alternativo que tocava nas rádios universitárias americanas (e que por estas bandas teve como principal meio de divulgação o programa “Lado B” da MTV tupinambá) e que gerou outras grandes bandas como o também esquecido (e injustiçado) Hüsker Dü, acabou sendo eclipsado pela efervescência de um movimento que ofuscou todo o resto do indie rock produzido naqueles tempos: o rock oriundo de Seattle e arredores, popularmente conhecido como grunge.

Infelizes daqueles que deixaram de conhecer as harmonias mesmerizantes, os refrões catárticos e a beleza pungente das gravações do Buffalo Tom. Que, diga-se de passagem, voltou a gravar um álbum de inéditas, Three Easy Pieces, após um longo hiato de nove anos. Você provavelmente sequer ouviu falar nesse lançamento, porque quase ninguém, a não ser a escassa base de fãs fiéis da banda no Brasil, esteve atento ao novo álbum. Confira, pois, o vídeo do single mais recente do Buffalo Tom, You’ll Never Catch Him, uma bela prova de que Bill Janovitz, Chris Colburn e Tom Maginnis ainda são capazes de criar canções para aquecer almas.

O lado pop de Stephen Hawking

Saturday, January 5th, 2008

Stephen Hawking, além de ser provavelmente o mais brilhante cientista de sua geração, também se destaca pela preocupação em fazer com que a ciência não seja encarada como um bicho de sete cabeças por jovens e adolescentes que costumam se interessar mais por assuntos como as constantes aparições de Britney Spears sem calcinha ou a lista dos participantes do próximo Big Brother. São marcantes, por exemplo, as suas aparições em seriados como “Star Trek: a Nova Geração”. Vide a cena abaixo, na qual Data joga cartas com os hologramas de Hawking, Isaac Newton e Albert Einstein.

george-hawking.jpgA nova investida de Hawking em tornar mais acessíveis seus conceitos sobre física, astronomia e a ciência em geral é um livro escrito junto com sua filha Lucy, intitulado “George e o Segredo do Universo”. A obra é originalmente voltada para o público infantil, mas tal qual o best-seller “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, fez com o universo da filosofia, também serve perfeitamente como introdução para que leitores de todas as idades tomem conhecimento das idéias de Hawking e compreendam melhor temas contemporâneos como o aquecimento global ou os motivos pelos quais os astrônomos rebaixaram Plutão à condição de “planeta anão”. O 1º capítulo de “George e o Segredo do Universo”, publicado no Brasil pela Ediouro, pode ser recebido no formato PDF através do site do livro. De quebra, internautas podem concorrer a lunetas, binóculos e exemplares da obra em uma promoção que vai até o dia 31 de janeiro.

Last, but not least: confiram o que Stephen Hawking tem a dizer sobre “Os Simpsons”, sua série de animação predileta, e para a qual fez participações especiais em três episódios.

O presente de ano novo do Radiohead

Thursday, January 3rd, 2008

Depois de terem sacudido a indústria musical ao lançar o álbum “In Rainbows” na internet, permitindo que os internautas que baixassem as músicas em arquivos mp3 definissem quanto gostariam de pagar pelos downloads, o Radiohead aprontou mais uma bela surpresa: a transmissão em streaming, durante o réveillon, de um vídeo no qual tocou simplesmente todas as músicas de “In Rainbows” ao vivo.

O vídeo, batizado por Thom Yorke de “Scotch Mist”, foi exibido primeiramente na Radiohead.TV. Depois, como já era de se esperar, caiu no YouTube. Confiram logo abaixo os mais de 52 minutos do webcast de uma banda que, espero eu, ainda haverá de fazer shows na Terra Brasilis neste ano.